Pequena coreografia do adeus

21/02/2025
Nossa subjetividade se constrói a partir do ambiente em que crescemos. Um ambiente suficientemente bom - que nos sustenta, acolhe e facilita as conquistas fundamentais do amadurecimento - é essencial para um desenvolvimento emocional saudável. O que acontece quando esse ambiente repetidamente falha em se adaptar às nossas necessidades?

Pequena coreografia do Adeus, livro de Aline Bei, conta a história de Júlia Terra, uma jovem que cresce num ambiente marcado pela violência e pelo desamparo. É uma dessas histórias que estão na literatura, mas que poderiam facilmente estar no consultório. Júlia, que não só assiste à vida dos outros mas se torna, por vezes, acessório nas dinâmicas conflituosas dos adultos, não encontra nesse ambiente uma base para ser. Seu fluir é interrrompido e substituído por defesas para sobreviver psiquicamente à precariedade afetiva e às invasões. 

Assim como no consultório, a gente se pergunta: como seria possível reconstruir uma vida sentida como válida quando o que foi oferecido no início foi tão insuficiente? Acho bonito pensar a partir do título do livro e da história de Júlia, que muitas vezes serão necessárias pequenas (mas poderosas!) coreografias de adeus. Júlia seguiu adiante, não sem dificuldades, para encontrar novos ambientes que pudessem permiti-la ressignificar dores, compreender o que viveu e experienciar o que por algum motivo lhe faltou: confiabilidade, segurança, descanso, dignidade. Esses elementos, acredito eu, são também o que encontramos num bom vínculo terapêutico, um espaço potente de despedidas e inaugurações. 

Na clínica a gente também testemunha que é preciso dizer adeus para um sem fim de coisas, pra retomar o passo, para emancipar o corpo, para encontrar numa dança mais intuitiva (menos coreografada) e autêntica, o viver que faz sentido.

Texto escrito por:
Fernanda Nascimento
Psicóloga Clínica

CRP: 01/20090

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